“É uma questão de educação”

Abril 24, 2008

Nídia Faria

É segundo a educação que nos dão em casa que crescemos sendo de determinada forma. Tudo começa por depender do jeito com que nos tratam, e aquilo que nos mostram e ensinam. Sejam pais, sejam avós, irmãos, tios, primos, nossos amigos, ou até desconhecidos, como o senhor Chico da mercearia, que oferece sempre a quem lá compra alguma coisa uns raminhos de salsa e de coentros, a Dona Idalina da lavandaria, que vive cantarolando as músicas mais antigas que se possa imaginar, alegrando a disposição da gente que por ali deixa uma trouxa de roupa para lavar e passar, o senhor Benedito, que passeia todos os dias com a sua mulher no jardim em que ambos falaram pela primeira vez, a Marianinha, que não pára quieta um segundo e beija as pessoas de que gosta a cada dez minutos, o professor António, que sabe ouvir, e sabe ler as pessoas num olhar, e tem o dom de ajudar e comover as pessoas com o tom de voz, o toque e as palavras.

Temos sempre algo de importante e de único para aprender com os outros. Muitas vezes o que acontece é subestimarmos a gente pela sua aparência. Natural. Mas por vezes estúpido e injusto. No máximo, essa atitude só é perdoável quando se subestima o outro por uma questão de defesa – protegermo-nos das aparências que nos parecerem cruéis, taradas, ou mesmo absurdas -, e nunca perdoável por preconceito. Quando se evitam pessoas por preconceito, evitamos também momentos que poderiam surpreender-nos pela positiva, e evitamos até uma possível mudança de opinião sobre essas pessoas.

É, contudo, junto das pessoas que mais passamos tempo connosco que nos formamos, e que vamos coleccionando e pondo em prática as lições de vida que formos absorvendo.
A liberdade, a confiança, o respeito, o carinho, a atenção, a compreensão, o apoio, ou a falta de tudo isto, serão condicionantes da nossa personalidade. “Diz-me com quem andas, e dir-te-ei quem és.”

Acredito que o ser humano nasça com uma “tendência para” que marca o ser estar no mundo, mas que, nascendo com ele, não é certa nem errada, porque não foi aprendida. Acredito na aura que vem connosco, uma aura que nos influencia os passos, como se tivéssemos uma missão a levar até ao fim, e o nosso espírito já chegasse a este mundo com uma orientaçãozinha, que a gente logo podia escolher seguir ou não. Seria como que um sopro divino sobre o coração, que viesse em cada um de nós, mas que se manifestasse de um jeito ou de outro, consoante as experiências e as pessoas que se cruzarem com a nossa vida.

O ser humano vai crescendo e acaba por se moldar a si mesmo, também, segundo princípios e ideais que adopte como prioritários norteadores da sua conduta.
Mesmo que todos nós partilhássemos um conjunto de crenças, teríamos sempre maneiras de interpretá-las muito próprias, pintando-as de cores diferentes. Porque somos assim. Distintos. Irrepetíveis.

Somos de acordo com aquilo que nos mostram, que nos dão a sentir, a provar, mas também de acordo com o meio onde vivemos, até mesmo com o lugar onde trabalhamos, onde convivemos e onde nos dá mais prazer passar o tempo. Há locais que definitivamente marcam o nosso lugar no mundo, e que funcionam, por isso mesmo, como grandes molduras onde nos enquadramos e nos vamos desenhando.

As crianças crescem segundo algumas regras, regras estas que nem devem sufocá-las nem estragá-las, mas sim norteá-las, para que tenham alguns limites, mas, como tudo, sem lhes roubar a liberdade devida, pois que tudo aquilo que é demais, estraga.
Há pais que mimam demasiado os filhos e esquecem-se de lhes dar limites importante, e por outro lado há pais que não mimam os filhos, de modo que estes só vêem “limites” e “faltas”, e esquecem-se de ser aquilo que são – crianças -, ou tornam-se rebeldes por falta de carinho e de cuidado, geralmente até para chamar a atenção dos pais.
Enfim. De tudo um pouco nos poderia acontecer, e de tudo poderíamos ser. Se somos do nosso jeito, é porque assim nos deixaram ser ou porque não nos permitiram ser de outra maneira.

Quando uma criança, um jovem, ou um adolescente, falta ao respeito a um professor e é mal educado, variando a situação, essa falha de conduta pode acontecer porque em casa e/ou na escola este não aprendeu, ou não interiorizou aquilo que lhe ensinaram “maneiras” – ser-se educado. Contudo, a forma como o professor repreende (ou não) o aluno será de extrema relevância para que o próprio jovem aprenda a estar em aula e com que modos tratá-lo.
Por vezes, as crianças desabituaram-se em casa a prestar atenção àquilo que lhes diziam, bem como a respeitar as pessoas mais velhas. Há falhas que vêem connosco de casa, mas também há falhas que se ganham na escola – e estas poderão vir da parte até mesmo de adultos, e não só de outros colegas, que sirvam de exemplo.

É muito importante, como todos sabemos, os exemplos que temos em casa, e que nos ajudam ou desajudam a ter “boas maneiras”, e mesmo a formar o nosso carácter, que é sofre alguma influência por parte dos outros, que nos são importantes, que nos são mais próximos, que convivem connosco, e que nos aconselham e nos ensinam o que acham ser certo ou melhor.
Daí todos termos percepções diferentes de uma mesma realidade – porque a vivemos à nossa maneira, na nossa medida, segundo os princípios que aprendemos e que, considerando-os preciosos, guardámo-los para nos guiarem a os passos.

Os pais, porém, têm sempre uma responsabilidade muito maior na educação dos filhos, e naquela que lhes falta ainda ensinar. Mesmo que os jovens convivam com muita gente na escola e fora dela, e possam aí aprender comportamentos que não sejam “tão correctos e íntegros”, caberá aos pais desses jovens confrontar-lhes com esse facto e explicar-lhes aquilo que é importante para conviver bem com os outros: aprender a respeitar, a ouvir, a interpretar, a ler os outros. E muitas vezes a ter paciência, a saber distinguir os momentos oportunos e inoportunos para uma intervenção, e até mesmo a arte da argumentação – muito apreciada e posta em prática pelos adolescentes.
Quem sabe se parte daquilo que parece errado na conduta dos filhos não é fruto da falta de atenção, de carinho, de preocupação por parte de alguns pais? Muitas vezes nem temos tanta culpa quanto aquela que nos atribuem. A educação que nos deram viciou-nos as atitudes e as condutas, e só mesmo com uma grande força de vontade e de consciência é que podemos esquecer e mudar o que de errado aprendemos, para sermos melhores.

Todos acabam por ter a sua parcela de responsabilidade! Ninguém se safa. Todos têm o seu papel: aprender, ensinar, voltar a aprender, voltar a ensinar. Mas claro que só é possível ensinar quando se aprendeu… Fora a excepção dos autodidactas, que tantas vezes andam por aí e nos maravilham com as suas teorias surreais. Os outros mortais terão um caminho mais trabalhoso, na base do “ir tentando acertar”. Mas os erros fazem parte de todas as grandes lições de vida, e sem eles não saberíamos a diferença entre aquilo que traz paz e entendimento, e aquilo que nos arma e nos deforma o pensamento. Caberá a cada um de nós perceber isso, e viver em consciência de todos: de si e dos outros – respeitar o mundo, as suas coisas, e as suas gentes. É uma questão de educação.

Ao Sabor das Palavras, por Nídia Faria

Dezembro 19, 2007

Em busca de um meu lugar

Estou fora de mim e vou, de mãos dadas com o mundo. Saio desta prisão física que é o meu corpo e voo para bem longe daqui, como uma andorinha precisando da sua Primavera. Não sei ainda aquilo de que vou à procura. Talvez goste apenas de voar, de ir solta no ar, de abrir as asas e planar, pairando divertida sobre tudo o que descansa e se mexe e vive lá em baixo.

Nas alturas, passeio-me nas nuvens – qual relva dos céus – e em névoas – que me lembram os bosques encantados, onde habitam várias criaturas alternativas e engraçadas, inventadas nos contos de fadas. Desço só de vez em quando, para pisar um pouco a terra, e sentir como o calor do sol se espalha pela natureza. Demoro-me um pouco mais nela. Pura e encantadora, toca-me gentilmente no ombro, e beija-me a face rosada. Vou atrás dela. Embrenho-me mais ainda, e ingenuamente me faço convidada. Ela acolhe-me nos seus aposentos verdejantes, onde descansam na casca das árvores, nas folhas, e nas flores, indícios gotejantes de orvalhadas. E, nisto, todo um mundo se desenha e se revela, permitindo-me presenciar o espectáculo do seu “acordar”.

Neste bosque, os pássaros não me cantam melodias, mas conversam comigo, em silêncio. Tudo parece estar em suspenso, esperando o momento certo para se mexer, para ganhar vida e me vir conhecer.

É então que acontece. Tudo respira de uma só vez, em uníssono, como uma orquestra harmoniosa, enquanto a madrugada, com os primeiros raios de sol, se espreguiça no horizonte. Sinto o coração do bosque bater num compasso certo, suave mas intenso, estabelecendo um qualquer ritmo que ecoa musicalmente por entre os ramos e as folhagens, seguindo pelo chão, e despertando os animais do seu sono. É aí, e só aí, que os pássaros despedem-se de mim e iniciam as doces e trabalhadas entoações matinais.

Este mundo é um misto de sensações, todas elas coloridas musicais e perfumadas. São fragrâncias que molham, que escorrem, que flúem como quedas de água, descrevendo em tons invisíveis a essência de todas essas coisa que vão aparecendo – coisas que me olham, que me sentem, que me cheiram, que me ouvem, que me prestam atenção… E depois, como que em consentimento, despreocupam-se, e eu continuo o caminho, trilhado sem rumo nem juízo, pois que nada tenho e nada a mais do que este momento: entrego-me à descoberta, e vou descortinando os contornos escondidos deste lugar.

Aquilo que contemplo é diferente, não está do avesso, e por isso intriga-me e envolve-me de um jeito amistoso, quente e frio. Quero absorver tudo de uma só vez, beber tudo de um só trago, provar um pouco de tudo numa só dentada, gulosa.

Vou passeando comigo e inventado histórias com o cenário e com as personagens que o espaço me vem lembrando. Imagino o Capuchinho Vermelho e o Lobo Mau a seguirem juntos, saltitando de mãos dadas e cantarolando, amigos, até a casa da Avó, que já os espera, com guloseimas e miminhos de baunilha e chocolate. Vou-me divertindo com as invenções: “Como ficaria o Lobo Mau com uns calçõezinhos curtinhos, em padrões de castanho e preto-ébano, com uns suspensórios a ajustá-los ao pêlo farfalhudo? Adorável!” Inventá-lo tão amoroso derreteu-me o pensamento… “Por que é que o Lobo tem de ser Mau? E por que é que a Capuchinho vermelho não pode ser traquinas, imparável, e insuportavelmente sádica, e sarcástica? Hmmmm…”

Agora era eu que queria virar esse mundo ao contrário. Mas há equilíbrios que, se quebrados, fazem o mundo desandar.

Volto-me de novo para o que me rodeia, e descanso das ideias.

Repouso os meus sentidos naquilo que existe e que se vem manifestar naturalmente, interpelando-me e cumprimentando-me com sorrisos e piscar de olhos, deixando-me segredos no vento, que me chegam, endereçados, sussurrando simultaneamente admissão e sugestão: pedem-me que fique, graciosamente, a figurar no meio do seu cenário, que é toda esta natureza – bela, e selvagem, e sem dono. O sorriso espalha-se deliciado pelo meu rosto. Acho que me fico por aqui, como uma criança que, brincando às escondidas, se esquece do tempo. Deixo-me assim, entretida com verdades e sonhos iridescente de menina, criando um meu mundo neste lugar, onde me encontro e me reconheço. Sinto-me a aprender o que sou, e, desta vez, sem medo de não-me gostar. Não me despeço ainda, mas sei que não posso ficar. Envio, então, um recado pelo vento, para que chegue em bom momento aos que me amam, pois que não os quero preocupar: “Fui e já volto, mas não me esperem para jantar.”

Leis da Evolução, por Nídia Faria

Dezembro 9, 2007

O homem parece ter nascido com uma vantagem grandiosa sobre o resto dos seres vivos que habitam a Terra. O homem teve direito exclusivo à capacidade de raciocínio, o que, curiosamente, só lhe veio complicar mais ainda a existência, acabando essa vantagem por lhe atormentar o espírito com questões e dilemas existenciais intermináveis que acabaram por criar, por sua vez, uma sensação de insatisfação. O homem é, sempre foi e sempre será, por isso, o único ser com manias de buscar constantemente algo, entregando-se a uma data de demandas infindáveis. Manias de seres racionais. Manias de gente.

Essas manias fizeram com que o homem se preocupasse com tudo – ou com quase tudo – aquilo que existe à sua volta, e foi esse poder racional, com que fomos presenteados, que nos permitiu problematizar o mundo e atingir o progresso a vários níveis.

Desde sempre que o homem revelou uma tendência para querer dominar e superar o Tempo – a velhice, e com ela os desafios do que é ser-se velho -, bem como digladiou-se para encontrar formas de dar a volta – e a reviravolta – às doenças que lhe atacam o corpo e a mente. Este ser racional tem uma persistência incansável e incorruptível em buscar e alcançar uma “vivência quase que imortal”, procurando sempre maneiras de viver mais e o melhor possível – o medo de sofrer e de morrer, que é tão natural, acabou por incentivar a genialidade e a superação de mistérios e de males existentes e inimagináveis. Assim sendo, o homem combate todos os dias para se ultrapassar a si mesmo, travando, desde que nasce, uma luta desenfreada e teimosa contra um Tempo, que é inflexível e irresgatável. Esse, passa e não espera.

Há gente que se programa, a modos de ocupar as horas que lhe restam, para concretizar algo: define-se uma missão qualquer, e enche-se de intenção e de iniciativa. Há missões fáceis e difíceis, concretizáveis ou improváveis, e, por vezes, mesmo impossíveis. Mas há missões e intenções.

Salvar uma vida. Eis uma heróica e generosa intenção, uma acção digna e admirável, que pode partir de qualquer ser humano, bastando atitudes simples, até – por exemplo, só o facto de se dar sangue já pode salvar várias vidas. É concretizável.

Prolongar o nosso tempo de vida. Eis uma curiosa e ousada intenção. Uma intenção que já não depende de todos. Depende de um resumido grupo de pessoas, ligadas ao vasto campo das Ciências – Biológicas, Naturais, e afins. Neste caso, a solução pode partir de uma centelha de esperança, e da tentativa incessante de se superarem as adversidades que se apresentem à saúde de cada um.

Busca-se, portanto, uma cura, uma luz, um ”plano de fuga” para as falhas naturais e anormais que possam desorientar e fazer falhar o funcionamento do nosso organismo, sejam estas falhas pontuais, ou provocadas por acidente, ou mesmo genéticas. Sente-se uma vontade imensurável de poupar ao máximo o ser humano do sofrimento, e, muitas vezes, apenas o que se consegue é o adiar deste.

Mesmo assim, a Ciência não deixa jamais de nos surpreender com as suas propostas e descobertas, criando e experimentando fórmulas que permitam chegar a brilhantes revelações e compreensões.

Um dos campos visados pela Ciência é o da saúde, portanto. A saúde como um bem essencial, como um direito que a todos pertence. Mas até que ponto se esforçam estes cientistas para nos oferecer as condições que nos permitem viver anos e anos e anos? Nunca pensei nisto assim, mas funciona quase como uma impressionante ambição de se conquistar o segredo que nos venha aproximar o mais possível do impossível: “a eternidade”.

Claro que essa eternidade não nos pertence, e imaginar o mesmo homem vivendo durante todo o sempre sem encontrar um fim, ou sem conhecer o seu fim, parece-me aborrecido. Mas as pessoas assustam-se com o fim das coisas. Vêem-nas acontecendo diante dos olhos, e ganham medo desse procedimento natural que acontece a todas as coisas que existem. Cada pessoa se assusta por razões próprias, por exemplo: porque não querem sofrer, ou porque não sabem se existirão depois, mais uma vez, ou porque não gostam da sensação de não controlarem esse momento final, e por aí adiante. Também há quem não tema a morte, e viva mais tranquilo. Mas a verdade é que se faz um esforço incrível para se sobreviver. Que vontade! Que ousadia!

Com tudo isto, preciso e faço uma pausa. Abro o jornal, e embrenho-me despreocupadamente nas suas páginas. Lendo-o, encontro uma notícia curiosa, e paro por um instante. Encontrara mais uma prova deste esforço de sobrevivência humana. Incrível! Segundo a Agência Lusa, a professora e investigadora Margarida Correia Neves lançou para debate uma nova proposta, o xenotransplante, que consiste em transplantar órgãos de animais para seres humanos.

A investigadora crê que, no futuro, esta possa ser uma das medidas às quais, para se salvarem vidas, os médicos possam eventualmente vir a recorrer: transplantes de órgãos não só humanos, mas também de origem animal – tudo em prol da sobrevivência humana.

Segundo a investigadora, várias experiências têm sido feitas respectivamente ao transplante de órgãos inteiros, mas até hoje nenhum desses casos vingou. O que tem funcionado é o transplante de válvulas cardíacas ou de vasos sanguíneos – de suínos e bovinos – para recuperação ou mesmo substituição destas no ser humano.

Na verdade, o grande desafio do xenotransplante, segundo Margarida Neves, fixa-se no facto de este exigir uma redução muito elevada da resposta do sistema imunitário do paciente, o que, por sua vez, deixa-lo muito mais vulnerável às infecções.

Apesar disso, sente-se o optimismo da investigadora, que acredita ser uma questão de tempo até que os necessários aperfeiçoamentos no procedimento e na precaução em torno de toda a cirurgia a venham tornar mais segura, e, também, menos assustadora ou estranha para os pacientes.

Curiosamente, as pessoas voluntariam-se – suponho que num acto de puro desespero e nunca pelo gosto insano de aventura ou de adrenalina… (Sempre são organismos diferentes…)

É certo que todas as experiências feitas requerem, naturalmente, cobaias, tanto animais como humanas, mas tudo isto faz-me divagar pelos corredores da Ética: “Será justo? Será a justiça para aqui chamada, se quer?”

A única diferença é que, aqui, o ser humano tem a chance de escolher submeter-se e prestar-se a esse papel, enquanto que os animais não. É aquele procedimento que advém do típico raciocínio científico, chegando-se quase sempre à mesma ilação: o progresso implica cobaias. Sem elas, não se saberiam os resultados em seres vivos; sem “vítimas”, não se descobririam as consequências, os efeitos primários e secundários e terciários e por aí adiante. E, se assim não fosse, não se poderiam salvar vidas.

É então que acontece.

Surge-me uma questão – um momento de azáfama mental rodopiante em que as ideias e as coisas que sabemos e que vamos descobrindo se misturam, se cumprimentam, mas não se entendem. Resumo-me ao ser irrequieto que sou, graças à minha racionalidade abençoada, e, em consciência de uns quantos princípios éticos, aliados a uma adoração por animais, vejo-me vacilar perante a realidade que teima em bater o pé e afirmar-se mais uma vez: “Um mal menor por um bem maior.”

Será ridículo sentir pena dos animais que são utilizados vezes e vezes sem conta para experimentarem neles todo o tipo de soros e drogas inventadas, e que acabam eventualmente – atrevo-me a afirmar que muito certamente – por matá-los de forma assaz atrocidante? Como será estar na pele de quem aplica todas aquelas injecções, com conteúdos estranhos, fabricados nos laboratórios, e que depois abre o corpo indefeso desses animaizinhos – semi-vivos, semi-mortos – a meio para retirar aquilo que bem lhes entender…? Não a imagino uma tarefa fácil – nem de se fazer, nem de se entender. Mas respeita-se. Não sei como, mas respeita-se. As pessoas parecem respeitar porque “tem de ser”, lá está.

E nisto, lá vêm elas – as imagens. Chegam e invadem-me a mente num rompante, apertando-me o coração numa sensação desagradável – sensação de que algo não está certo, de que algo funciona ao contrário. São questões polémicas que chegam e atormentam a minha Razão: “Será justo usarmos o nosso poder sobre animais que não se podem defender? O que andamos nós a fazer?” E respondem-me: “Progressos.” Naturalmente, eu sei. Sei que estas coisas são assim em prol de um avanço na medicina, e não só… Mas, e as questões éticas? Até que ponto o ser humano tem o direito de torturar uma vida, de por cobro a ela, por mais pequena ou indiferente que ela lhe possa parecer nas mãos?

A realidade que vejo, que ouço e que vou desvendando confessa-me coisas que não gosto de ouvir. O mundo que foi feito pelos homens declara que é normal sacrificar os seres vivos mais pequenos e indefesos em benefício dos outros, mais fortes. Isso quer dizer que acaba por ser digno, então, trancá-los em gaiolas de ferro, com uma luz artificial a bater-lhes nos focinhos, e não a luz do Sol, e, em vez de carinhos e festas, espetam-lhes agulhas finas e grosas, grandes e pequenas, cravadas no pêlo, e que vão invadindo o corpo vulnerável e maltratado desses animais, até que se testem todos os líquidos coloridos dos tubinhos de ensaio, cujo resultado é derradeiramente incerto, mas possivelmente fatal. “São males que vêm por bem…” – ouço dizer. Ao que parece, são males que “não fazem mal nenhum”! Mas, então? São o que são: males, e ferem, como todos eles. “Mas, tudo em prol de uma sobrevivência, certo? Então, está bem!” São coisas…

Serei insana ao comparar o sofrimento humano com o animal? É que a dor é-me universalmente entendida: dor é dor. Ambos – gente ou animal – sofrem dor: aquilo que sangra um, com certeza que sangra o outro, e aquilo que mata um, com certeza que mata o outro – e refiro-me ao que presumivelmente se faz dentro de um laboratório durante esse sortido de experimentações.

Margarida Neves, a investigadora, coloca um dilema interessante: “A questão é saber se o homem é ou não um ser superior e se tem ou não direito a usar animais.”

Estranha sensação. Até que ponto a vida de um ser humano é mais importante e preciosa do que a de um outro ser vivo? “Tal como dor é dor, vida é vida.” – segredam-me a mente e o coração, em conversa comigo, emocionando-se – “Ambos nascem para viver – tanto o ser humano como o animal, e ambos têm esse direito. O Homem ganhou foi a presunção, agora típica, de que pode mexer nas vidas mais frágeis…” O que faz mais impressão será o facto de fazermos tudo conscientemente, portanto. E outra questão desenha-se em mim. “Por que é que faz impressão às pessoas pensar em experiências em que se usam seres humanos e não lhes faz tanta confusão, ou mesmo nenhuma, quando nessas experiências são animais que sofrem? Será que se esquecem que também eles sentem?”

E lá vem aquela revolta que, sem quaisquer apresentações, autorização ou explicações, me toma e me perturba mais uma vez: “Matamo-los por sobrevivência ou já se tornam caprichos de ‘gente’?”A certa altura, não sei o que pensar. Não posso afirmá-lo um capricho, porque realmente salvam-se vidas humanas com o sacrifício de muitas vidas animais, mas… Será justo matar uma vida – que não se pode defender com a mesma inteligência – para salvar outra, da forma que se faz?

“Matar para salvar?” Resultava se fosse aquela ideia de “matar para comer”, e mesmo assim o facto de o homem matar em série industrial para alimentar todo um mundo capitalista – só se vive pensando em lucro – faz-me lembrar inadvertidamente primeiro, em campos de concentração, e segundo,  numa posição de “serial killer”. A ideia de testar produtos estranhos para cosmética em animais, e de se experimentar transplantar órgãos animais, e por aí, soa-me estranho. Soa-me a injustiça impensada, não calculada nem acreditada. É contraditório, e isso assusta-me. Parece-me vazio de sentido humano. Isto porque conseguimos usá-los em nosso proveito de todas as formas possíveis e imagináveis! Quando lhes fazemos mal, temos noção disso, e o facto de a termos, torna tudo um pouco “malicioso”. Os animais não pensam, logo não têm malícia naquilo que fazem. É tudo instintivo, espontâneo, sem pretensões.

Assim, surge algo de perverso nesta presunção humana, nestes esforços. Matam-se vidas. Salvam-se outras. E qualquer coisa falha aqui. “Teremos esse direito?”

Pensativa com a notícia sobre o xenotransplante, recosto-me e deixo-me reflectir mais um pouco. Perturbam-me estas questões. A falta de humanidade nos homens, por vezes. Mas, supostamente, tudo isto é “normal”. É corajosamente aceite pelo Bem de todos – de todos os seres humanos. Há, contudo, campos que nos fazem entender “abusos” diferentes de poder sobre os animais: tanto a cosmética como a medicina evoluem, graças a cobaias animais, mas não respondem a uma mesma necessidade, nem relevância. Há aqui um egocentrismo solto, não reconhecido, irracional, que nos parece legítimo. Só nos interessamos por nós, e basta.

Exploramos! Nada mais natural, e ainda assim… Por que é que a minha Razão não se acalma? Raio de consciência…!

A investigadora apontara ainda que considerava mais digno fazer-se estas experiências do que se cultivar uma produção alimentar capitalista.

Isso fez-me entender que há pessoas que desligam e ligam, quando assim o decidem, o interruptor da ética, ou que treinam muito a sua mente para aceitar determinadas atrocidades e não outras. É uma questão de selecção. Coisa de gente. A mente humana é o sistema mais complexo que poderá alguma vez existir, com certeza…

Vivemos, de certo, uma época de capitalismo puro, e nisto, inclui-se naturalmente o campo da alimentação. O ser humano agarrou-se, como já referi, ao lucro capitalista para criar e matar em série animais que faz nascerem em espaços controlados, esquizofrenicamente apertados, onde são criados para um único fim – a prateleira do supermercado mais próximo. Ou seja, estes, enquanto vivem, não vivem livres, partilhando o mundo que existe lá fora, a relva, o Sol, a chuva. Vivem em cativeiro, em mundos esterilizados, onde todas e quaisquer condições atmosféricas e alimentares e higiénicas serão controladas para garantir a “qualidade” dos produtos finais. Isto são factos, não são dramas nem ilusões.

Há, decididamente, qualquer coisa de muito egoísta em nós. Só o ser humano é capaz de usar e abusar e matar, por tudo e por nada, e tanto fá-lo pelo Bem – como aconteceu num caso até mencionado nesta notícia, em que se retirou o fígado a um chimpanzé para se colocar num paciente – e a questão agora é: “E o chimpanzé aceitou submeter-se a isso? Pois, com certeza!” -, como pelo Mal – o mal acontece sob tantas formas. O ser humano é o único ser vivo que é capaz de matar, tendo consciência dos seus actos, por ganância, por maldade, por prazer, por fins maiores que ele próprio, sejam as vítimas da sua ou de outra espécie. E os animais morrem porque o Homem quer a sua pele – animais selvagens de pequeno e grande porte, como raposas, coelhos, e os exóticos tigres, leopardos, zebras -, quer as suas presas – elefantes -, quer a sua carne – legítimo, porque destina-se à sobrevivência, e, mesmo assim, o ser humano retira daí lucro -, quer divertir-se com a morte deles – lutas entre animais, lucrativas, clandestinas, organizadas em segredo -, ou mesmo com confrontos entre homem e animal – como acontece nas touradas -, e, agora, pelos seus órgãos frescos. Maravilhosa realidade, esta, a que presenciamos hoje. Acredito que, no futuro, consigamos encontrar ainda mais razões e maneiras de usar a vida e a morte de animais. Um futuro promissor… Deveras…

Há pessoas que se esquecem. Esquecem-se e habituam-se a não se lembrar. Então, eu lembro-lhes agora. Os animais não são “coisas”. Curiosamente, são seres vivos, e não brinquedos. Se for para se matar, deveria ser apenas por questões de sobrevivência da espécie, mas não vejo só “sobrevivência”. Não. Vejo “brincadeiras”, vejo violência contra os animais, também. Há pessoas que lhes pegam e brincam com eles, como se as suas vidas não fossem nada, mas, ainda assim, estes respiram, mexem-se nas nossas mãos, e estão quentes, ainda.

Porque será que pensamos assim? “Podemos e fazemos. Sem remorsos.” É mais fácil para os animais, que não têm esta nossa noção racional daquilo que se faz. Mas nós temos. “E?” – pergunto-me. “Não sei… Tal como há pessoas que baralham a esquerda e a direita, há quem baralhe o certo e o errado.” – respondo-me.

Já o animal não baralha nada. Esse, é, e vive livre, quando o deixam. É selvagem e solto no mundo, sem dono, pertencendo a todos os lugares que quiser. É animal que mata por impulso, porque está na sua natureza caçar para sobreviver, também. Mas mata só e apenas por questões de sobrevivência e de defesa, mas o homem não mata só por isto, e é essa diferença a chave da questão. Nisto, o animal ganha contornos inocentes porque não esquematiza, não planeia, não imagina, não inventa, não tem capacidade de raciocinar, e, por isso, nunca revela malícia consciente naquilo que faz. Assim, as intenções do homem seguem uma vantagem – o raciocínio – que, mesmo sendo natural, e devendo ser aproveitada e desenvolvida, retira um pouco – ou muita – da candura dos seus actos – dependerá da situação -, já que o homem faz tudo com consciência: mata, tal como referi em cima, por boas e também por más razões. O animal ganha uma dimensão mais “ingénua”, mais frágil. Mais digna. Não mata por matar, mas porque precisa de comer. Já o homem… São várias as razões que o movem.

O que me intriga nisto tudo é o seguinte. O animal, ser irracional e “pensado como inferior”, acaba por agir de maneira mais humana, digna, respeitável e “superior” do que o próprio ser humano, que tantas vezes é capaz das maiores atrocidades e desumanidades, tanto contra elementos da sua própria espécie, como de outras.

Estamos num mundo estranho, onde os animais conseguem ensinar-nos lições, e nós não o percebemos porque nos consideramos “inteligentes”, e isso por si só já seria muito. Somos, se calhar por isso, os que mais temos para aprender. São inúmeros os desafios que nos surgem graças à racionalidade. Erros cometidos? Incertezas? Aspirações? Qualquer coisa pode conspirar contra a vida de outros seres, sem que reparemos, por força do hábito, talvez. Nós temos, por isso mesmo, a responsabilidade de reflectir sobre os nossos actos e intenções. Coisas com e sem Razão. É coisa de gente, o que nem sempre se entende.

Perigos na estrada

Novembro 11, 2007

Sempre me ensinaram que o carro, as motos e afins, são meios de transporte de pessoas e não exibição. Infelizmente, porém, não é isso que se vê nas nossas estradas.

Ha condutores, nomeadamente os mais jovens, que pensam que o automóvel é um meio de exibição é um meio de engate. Quanto mais depressa andam mais depressa andam, mais probabilidades têm de conquistar uma miúda e entre os maigos são apelidados “grandes” condutores.

Depois saiem-se com com afirmações do género, para os que cumprem as regras de velocidade: “Tu até não és um mau condutor. Faltam-te é tomates!”.

Então pergunto eu: o que é ter tomates? Andar a 100km/h nas cidades? Fazer uma corrida com o futuro TGV a ver quem chega primeiro ao Porto?

Na minha escola de condução, ensinaram-me que havia regras a cumprir. O bom condutor é aquele que é seguro e não o exibicionista. No entano, enquanto somos jovens, o fruto proibido é o mais apeticido para muita gente louca que anda por aí. Só desejo ardentemente que os nossos amigos com “pé pesado” não contribuam para cada vez mais sinistralidade nas estradas portuguesas.

Miguel Pereira

Os casos da semana, por João Inácio

Outubro 28, 2007

Um gesto animal

Um caso que está a abalar todo o mundo. Guillermo Habacuc Vargas, artista reconhecido no seu país, Costa Rica, chocou na sua última exposição colocando um cão, vivo, sem água nem alimento para que este falecesse. Á vista de todos os que pela exposição passaram esteve o cão, preso a um canto, com pouca mobilidade, entregue inevitávelmente á morte.

Ora se até aos dias de hoje o tema da arte tem sido sempre colocado num pano subjectivo e por vezes indecifrável, este gesto “artístico” põe em causa ou reformula todo o conceito de arte na sua essência.

Será que podemos considerar tal elemento como arte? Ou será então um gesto desumano, desprovido de qualquer sensibilidade, desprezando uma forma de vida tão próxima da nossa?

Um “gesto animal”, no meu entender, que induz uma realidade tão bruta quanto a própria concepção ideológica de subvalorização da vida como esta se apresenta, de qualquer forma ou feitio.

Everybody was kung-fu fighting.

Braga, 25 de Outubro de 2006, 17 horas da tarde. O campeonato mundial de Kung-Fu realiza-se na cidade do norte do país; dum lado, duas centenas de homens, aparentemente vestidos de igual, um traje onde o negro impera, munidos de artefactos tais como matracas e paus; do outro lado, oito jovens, sem qualquer armamento, entregues á sua própria sorte.

Em traços gerais foi isto que aconteceu na cidade minhota, onde oito jovens “caloiros” foram perseguidos e quase agredidos, não fosse a pronta actuação da PSP de Braga.

Uma história que faz lembrar o velho clássico de Carl Douglas de 1975 “Kung-Fu Fighting”.

Quem apagou a luz?

Em Benfica vive uma senhora chamada D.Maria. A D.Maria tem 77 anos e a sua rotina já bastante definida; todos os dias levanta-se por volta das 9, toma um banho, arranja-se, toma o pequeno-almoço, vai ao café, e outras coisas mais.

Quinta-feira, a D.Maria levantou-se e decidiu ir tomar banho; para seu espanto a luz da casa de banho apagou-se de repente; A D.Maria, atrapalhada, tentou sair da banheira, escorregou, e aleijou-se.

Esta poderia ser a história de um dos 30 mil habitantes da zona de Benfica e arredores que ficaram sem luz na passada quinta-feira, entre as 9.30 e as 10.30 da manhã sensivelmente.

O corte deu-se depois de, inadvertidamente, o manobrador de uma máquina de construcção cívil, a laborar junto do centro comercial Colombo, ter cortado, em simultaneo, 4 cabos de 1000 quilowatts cada.

Felizmente nenhuma situação grave foi registada, tendo o senhor manobrador pedido desculpa por todo o incoveniente que possa ter causado.

Por momentos, a pergunta mais recorrente na zona de Benfica terá sido “Quem apagou a luz?”, batendo todos os records de perguntas feitas em simultâneo numa determinada zona territorial.

Timeout para os Buraka Som Sistema

É com muita pena minha, e de alguns por ventura, que digito neste teclado para vos passar a informação de que os Buraka Som Sistema foram eliminados da categoria New Sounds of Europe, a propósito dos MTV Europe Music Awards, evento que se realiza em Munique no próximo dia 1.

O sucesso dos Buraka e a sua sonoridade inovadora não chegaram para convencer os juris que selecionaram, de entre os nomeados, 3 finalistas que actuarão na cerimónia.

Os Buraka foram a 12ª banda a ser eliminada pelo que fica o orgulho desde logo da nomeação para um prémio que tem ganho muita visibilidade ao longo dos anos.

Lembramos que o ano passado Gnars Barckley arrecadou o prémio de Best New Act no evento da MTV.

Os casos da semana, por João Inácio

Outubro 21, 2007

The Middle West.

Esta semana a cidade de Lisboa esteve em evidência. A Cimeira de Lisboa teve lugar nos dias 18 e 19 deste mês e contou com a participação dos 27 países constituintes da UE. Na agenda, a tentativa de chegar a um concenso em relação a um novo Tratado, baptizado como Tratado de Lisboa, que viria a substituir o fracassado projecto da Constituição Europeia, que falhou devido ao chumbo dos referendos em França e Holanda. A azáfama foi grande, o transito infernal, mas a nossa cidade esteve à altura dos acontecimentos; o acordo foi alcançado já na madrugada de 19, e as reinvindicações de Itália e Polónia foram resolvidas.

Desta feita, José Socrates esteve exemplar quando chamado ao uso da lingua inglesa, isto porque da última vez que o fez, perante televisões de todo o mundo em plena Casa Branca, e na companhia de George W.Bush, afirmou veementemente estar contente por ter debatido o problema do Kosovo «and», e passo a citar, «the Middle West problems».

Não há nada mais confuso que a terceira lingua mais falada em todo o mundo, ou nada mais traiçoeiro que os pontos cardeais da rosa dos ventos?
É caso para dizer: A bird in the hand is worth two in the bush.

Uma multa à Mike Tyson.

Trinta e cinco mil euros, sim. É o que “Felipão”, presença assídua nesta rubrica, vai ter de desembolsar devido ao seu gesto anti-desportivo que por momentos recordou o grande campeão de pesos pesados Mike Tyson e o seu temperamento dificil. Esta quantia reverterá para um fundo fair play que a fundação de Gilberto Madail pretende criar «como exemplo para todo o futebol português». Até aqui tudo bem.

Vejamos então: O Seleccionador de Portugal tenta esmurrar um jogador da equipa adversária, é punido pela UEFA em quatro jogos, vê a sua sentença reduzida para três, depois é conhecida a coima de 35 mil euros, e, por fim, o presidente da FPF decide criar um fundo para onde irá esse dinheiro.

Até aqui tudo bem!

Fast Food e McDonalds.

É por dia 16 de Outubro que se celebra o dia mundial da alimentação. Neste dia, todos os anos, são revelados números impressionantes acerca desta temática, mas que volvida uma semana são remetidos a esquecimento mais uma vez.

De acordo com os numeros divulgados, cerca de 854 milhões de pessoas em todo o mundo não têm alimento, ou seja, 14% da populaçao mundial.

Em Portugal não temos numeros concretos em relação a estes dados mas, segundo o INE, dois milhões de portugueses vivem com menos de 350 euros, 70 contos na moeda antiga, o que não chega para as necessidades básicas de alimentação.

Também por esta altura são evidenciados os maus habitos alimentares, dos que têm possibilidades e não as aproveitam. Portugal conta com cerca de 120 restaurantes em todo o seu território, com lucros impressionantes. Quem nunca comeu um hamburguer no McDonalds? Fica a questão em semana do dia mundial da alimentação.

Prémio Nobel choca com afirmações.

James Watson, responsável pela descoberta da estrutura da dupla helice do ADN humano, revelou a sua teoria «sobre a alegada base genética das diferenças de coeficiente intelectual entre indivíduos de raças distintas».

Neste estudo, o investigador incide sobre o continente africano pelo que tem sido invariavelmente acusado de declarações racistas, o que o próprio se defende baseando-se em conclusões cientificas, pedindo desculpa à comunidade africana.

Um caso que vai dar que falar!

Os casos da semana, por João Inácio

Outubro 14, 2007

Serviços infalíveis.

Conto na primeira pessoa. Esta semana passei uma situação no mínimo estranha; mais do que uma irregularidade contratual ou incompetência técnica está o espelho do que realmente representam os nossos serviços num mercado português, que se quer proactivo e capaz de fazer frente à forte tendência europeia.

Estávamos no dia 8 de Outubro quando decidi falar com a minha operadora para mudar a minha modalidade de tarifário; depois de cerca de uma hora a tratar de burocracias e afins, foi-me dito que tudo estava tratado e que a mudança de tarifário iria proceder sem mais demoras; não me preocupei mais e deixei o assunto de lado. Para meu espanto, no outro dia, o cartão deixou de funcionar integralmente, exibindo no telemóvel a mensagem: «falhou o registo do cartão SIM».

Confesso que aí alguma preocupação tomou conta de mim, dado que o telemóvel é um dispositivo que faz falta a qualquer um de nós nos dias que correm. Telefonei para a operadora ao que me foi dito que, por erro “deles”, o meu cartão tinha sido cancelado; pediram-me imensa desculpa e disseram-me que num prazo máximo de 24horas a situação iria ser rectificada.

Esperei…

Volvidas 24horas, tudo na mesma. Já com 48horas de espera decidi voltar a contactar os serviços de apoio ao cliente da minha operadora e a situação repetiu-se.

Chegamos a dia 12 e continuo de cartão cancelado, não sabendo o porquê da situação ainda não estar resolvida nem tão pouco quando será que essa resolução chegará. Será apenas estigma nosso ou temos mesmo razões de queixa?

O PIB também aumenta.

Mas não adoptemos a posição do português comum, que para ele em Portugal tudo é mau. Como em todo o lado há coisas positivas e negativas. Há que, no entanto, acreditar em dias melhores. É neste seguimento que me apercebi esta semana que o PIB português aumentou 0,5% entre os meses de Abril e Junho em relação ao trimestre anterior. Um prémio para a produção interna e para o esforço que pequenas e médias empresas, cada vez mais focalizadas numa perspectiva de mercado global, têm conseguido fazer no panorama nacional.

Raving in Sintra.

Esta semana, numa operação que já se prolongava há alguns meses, a GNR de Sintra apreendeu 3 mil pastilhas de ecstasy, haxixe e lsd. Os traficantes, uma portuguesa e um britânico, cuja actividade já estaria a ser observada há cerca de meio ano, foram surpreendidos numa mega operação levada a cabo eficazmente pela força policial de Sintra.

A venda e tráfico destas drogas era feita maioritariamente na zona de Sintra. Na região fez-se sentir este acontecimento, sendo que as alucinações e o consumo de café reduziram significativamente. Por esta altura o raving está com os dias contados.

O nosso milagre?

Falhou o processo de canonização dos pastorinhos Francisco e Jacinta por falta de «elementos médicos». Ora esta notícia, dada a percentagem elevada de católicos no nosso país, foi recebida com alguma tristeza e desilusão por parte dos portugueses. Os portugueses queriam este milagre!

A equipa médica que analisa a veracidade dos milagres, constituída por médicos consagrados, seleccionados pelo Vaticano, não reconheceu este fenómeno como um milagre, alegando a dificuldade de afirmar que esta cura não tem uma explicação cientifica coerente, decidindo em última instancia adiar a decisão, caso não apareçam mais dados conclusivos. Lembrando que esta suposta cura deu-se quando o filho de uma imigrante portuguesa, ao acompanhar a beatificação de Francisco e Jacinta pela televisão, e com a ajuda da prece da sua mãe, ficou curado da condição de diabético que detinha.

Independentemente da crença, ou não, estas canonizações estão sempre rodeadas de uma grande polémica. Uma noticia que marca a semana e acentua uma forte marca negativa a todos os crentes deste país.

Os casos da semana, por João Inácio

Outubro 7, 2007

O Pequeno Tirano

Esta semana fica indubitavelmente marcada pelas eleições “directas” para a presidência do Partido Social Democrata. Entre algumas trocas de mimos e eventuais irregularidades processuais, que envolveram alguns pagamentos de quotas em massa, estas “directas” decidiram que Luís Filipe Menezes é o novo líder social-democrata, derrotando o seu compatriota e adversário, Marques Mendes, o “pequeno tirano”, como o apelidou. Em demonstração de fair-play, Marques Mendes e todo o seu staff acabaram por desejar a maior sorte ao seu sucessor e, mostrar disponibilidade no apoio ao PSD para atingir os seus objectivos. Ainda assim o capítulo PSD não encerraria por aqui. Duarte Lima, apoiante de Menezes nestas mesmas eleições, ameaçou processar Marcelo Rebelo de Sousa pois o comentador, na sua habitual intervenção semanal, relacionou o militante com um «bloco central de interesses». Dias quentes para os democratas.

Um quase murro ténue.

No desporto há que referir o dérbi jogado no passado Sábado, dia 30 de Setembro. Benfica e Sporting encontraram-se num Estádio da Luz que se vestiu de gala para receber o rival da segunda circular num jogo bem jogado de parte a parte, onde o equilibrio e a disciplina foram as notas dominantes; alguns casos como já é hábito no futebol português, com o Sporting a reclamar a marcação de duas grandes penalidades não assinaladas, enquanto que do lado dos encarnados apenas uma foi reinvidicada. No final, ambas as equipas se congratularam, com os jogadores a trocarem camisolas num bonito gesto. Um bom momento para o futebol português que se abrilhantou neste final de semana, com a decisão da UEFA de reduzir a pena de Luís Felipe Scolari, de 4 para 3 jogos, significando isto que o treinador das quinas se poderá sentar no banco no ultimo jogo de qualificação para o Euro 2008, a ter lugar na Áustria e na Suiça.

Duas décadas psiquiátricas

Como caso insólito esta semana apresento-vos o “Doutor” Castro e Silva. O uso das aspas denuncia palavras ou expressões que fogem ao seu sentido original, ou seja, neste caso, o “doutor Castro e Silva” não é doutor mas fez-se passar por tal durante quase 20 anos. Carlos Castro e Silva exerceu ilegalmente Medicina Psiquiátrica num consultório seu, no Porto, durante todo este tempo. Depois de ir a julgamento foi conhecida a sua sentença: pena suspensa de 22 meses de prisão e pagamento de uma multa de 1500 euros. Extraordinário é também o facto de Carlos Castro e Silva ter, em certas alturas da sua actividade, testemunhado em tribunal na condição de Psiquiatra reconhecido e competente; ainda a adicionar a esta caricata situação está a posição de muitos dos seus doentes que defendem que este suposto psiquiátra exercia bem psiquiatria e nenhum utente apresentou queixa contra o “Doutor”.
Mais uma pérola episodica deste nosso país, digna de um bom argumento, de uma boa película cinematográfica.

Lídia Jorge

Para terminar, não puderei deixar passar incólume a distinção de Lidia Jorge, que venceu o Grande Prémio Sociedade Portuguesa de Autores e Millenium BCP com um «larguíssimo concesso» por parte do júri. Lidia Jorge sucede assim a Mário Laginha que venceu o prémio em 2006. Este prémio «é atribuído ao conjunto da obra de uma personalidade escolhida de entre as várias disciplinas artísticas abrangidas pela SPA». Lídia Jorge já tinha sido distinguida com o prémio Albatros, um prémio internacional de literatura da Fundação Gunter Grass, em Berlim. Uma escritora de sucesso, um motivo de orgulho para todos nós.

“Quero pagar estas bananas em três vezes sem juros!”

Outubro 1, 2007

–Marisa Alexandra Batista–

Este é o mais recente tipo de frases que as funcionárias de caixa na cadeia Modelo Continente vão passar a ouvir. Tudo porque esta semana foi lançado o novo cartão Modelo. Não é um cartão de descontos, como os que foram distribuídos há uns tempos. Este é um cartão de crédito. “Igualzinho” ao cartão Worten, com as mesmas opções de pagamento e lançado pela mesma financeira.

O que acaba por cair no ridículo é que os produtos da Worten são electrodomésticos, produtos não perecíveis e com dois anos de garantia. Trata-se de compras que não fazemos todos os meses. Na Worten uma compra corresponde a um investimento a médio-longo prazo. No Modelo, uma compra corresponde a um investimento de curtíssimo prazo.

Por exemplo, hoje fui ao Modelo. Comprei legumes, sumos, leite, pão. Factura: 7 euros. Já me imaginaram andar a pagar 7 euros durante 3 meses?! Os produtos que acabei de adquirir são um investimento para dois dias, não mais. E já imaginaram se eu amanhã voltar lá e fizer as mesmas compras e escolher a mesma modalidade de pagamento?! Onde é que as minhas finanças iam parar?

A mesma coisa se fizer as compras de final do mês e escolher uma das seguintes modalidades: fim-do-mês, três vezes sem juros e seis vezes sem juros. Não passa pela cabeça de ninguém andar a pagar uma compra de mercearia durante seis meses. No entanto, pagar um telemóvel Nokia N80 (que custa cerca de 200 euros) durante seis meses, já se torna algo mais sensato. Porquê? Porque eu não vou consumir o telemóvel de um dia para o outro (logo, investimento a médio-longo prazo), a loja dá 15 dias de satisfação-devolução, tenho o telemóvel dos meus sonhos sem me preocupar em arranjar 200 euros de uma vez só e durante dois anos qualquer situação que ocorra com o aparelho, será solucionada gratuitamente.

E você, vai querer pagar um quilo de bananas durante três meses e sem juros?