Ao Sabor das Palavras, por Nídia Faria

Em busca de um meu lugar

Estou fora de mim e vou, de mãos dadas com o mundo. Saio desta prisão física que é o meu corpo e voo para bem longe daqui, como uma andorinha precisando da sua Primavera. Não sei ainda aquilo de que vou à procura. Talvez goste apenas de voar, de ir solta no ar, de abrir as asas e planar, pairando divertida sobre tudo o que descansa e se mexe e vive lá em baixo.

Nas alturas, passeio-me nas nuvens – qual relva dos céus – e em névoas – que me lembram os bosques encantados, onde habitam várias criaturas alternativas e engraçadas, inventadas nos contos de fadas. Desço só de vez em quando, para pisar um pouco a terra, e sentir como o calor do sol se espalha pela natureza. Demoro-me um pouco mais nela. Pura e encantadora, toca-me gentilmente no ombro, e beija-me a face rosada. Vou atrás dela. Embrenho-me mais ainda, e ingenuamente me faço convidada. Ela acolhe-me nos seus aposentos verdejantes, onde descansam na casca das árvores, nas folhas, e nas flores, indícios gotejantes de orvalhadas. E, nisto, todo um mundo se desenha e se revela, permitindo-me presenciar o espectáculo do seu “acordar”.

Neste bosque, os pássaros não me cantam melodias, mas conversam comigo, em silêncio. Tudo parece estar em suspenso, esperando o momento certo para se mexer, para ganhar vida e me vir conhecer.

É então que acontece. Tudo respira de uma só vez, em uníssono, como uma orquestra harmoniosa, enquanto a madrugada, com os primeiros raios de sol, se espreguiça no horizonte. Sinto o coração do bosque bater num compasso certo, suave mas intenso, estabelecendo um qualquer ritmo que ecoa musicalmente por entre os ramos e as folhagens, seguindo pelo chão, e despertando os animais do seu sono. É aí, e só aí, que os pássaros despedem-se de mim e iniciam as doces e trabalhadas entoações matinais.

Este mundo é um misto de sensações, todas elas coloridas musicais e perfumadas. São fragrâncias que molham, que escorrem, que flúem como quedas de água, descrevendo em tons invisíveis a essência de todas essas coisa que vão aparecendo – coisas que me olham, que me sentem, que me cheiram, que me ouvem, que me prestam atenção… E depois, como que em consentimento, despreocupam-se, e eu continuo o caminho, trilhado sem rumo nem juízo, pois que nada tenho e nada a mais do que este momento: entrego-me à descoberta, e vou descortinando os contornos escondidos deste lugar.

Aquilo que contemplo é diferente, não está do avesso, e por isso intriga-me e envolve-me de um jeito amistoso, quente e frio. Quero absorver tudo de uma só vez, beber tudo de um só trago, provar um pouco de tudo numa só dentada, gulosa.

Vou passeando comigo e inventado histórias com o cenário e com as personagens que o espaço me vem lembrando. Imagino o Capuchinho Vermelho e o Lobo Mau a seguirem juntos, saltitando de mãos dadas e cantarolando, amigos, até a casa da Avó, que já os espera, com guloseimas e miminhos de baunilha e chocolate. Vou-me divertindo com as invenções: “Como ficaria o Lobo Mau com uns calçõezinhos curtinhos, em padrões de castanho e preto-ébano, com uns suspensórios a ajustá-los ao pêlo farfalhudo? Adorável!” Inventá-lo tão amoroso derreteu-me o pensamento… “Por que é que o Lobo tem de ser Mau? E por que é que a Capuchinho vermelho não pode ser traquinas, imparável, e insuportavelmente sádica, e sarcástica? Hmmmm…”

Agora era eu que queria virar esse mundo ao contrário. Mas há equilíbrios que, se quebrados, fazem o mundo desandar.

Volto-me de novo para o que me rodeia, e descanso das ideias.

Repouso os meus sentidos naquilo que existe e que se vem manifestar naturalmente, interpelando-me e cumprimentando-me com sorrisos e piscar de olhos, deixando-me segredos no vento, que me chegam, endereçados, sussurrando simultaneamente admissão e sugestão: pedem-me que fique, graciosamente, a figurar no meio do seu cenário, que é toda esta natureza – bela, e selvagem, e sem dono. O sorriso espalha-se deliciado pelo meu rosto. Acho que me fico por aqui, como uma criança que, brincando às escondidas, se esquece do tempo. Deixo-me assim, entretida com verdades e sonhos iridescente de menina, criando um meu mundo neste lugar, onde me encontro e me reconheço. Sinto-me a aprender o que sou, e, desta vez, sem medo de não-me gostar. Não me despeço ainda, mas sei que não posso ficar. Envio, então, um recado pelo vento, para que chegue em bom momento aos que me amam, pois que não os quero preocupar: “Fui e já volto, mas não me esperem para jantar.”

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