“É uma questão de educação”

Nídia Faria

É segundo a educação que nos dão em casa que crescemos sendo de determinada forma. Tudo começa por depender do jeito com que nos tratam, e aquilo que nos mostram e ensinam. Sejam pais, sejam avós, irmãos, tios, primos, nossos amigos, ou até desconhecidos, como o senhor Chico da mercearia, que oferece sempre a quem lá compra alguma coisa uns raminhos de salsa e de coentros, a Dona Idalina da lavandaria, que vive cantarolando as músicas mais antigas que se possa imaginar, alegrando a disposição da gente que por ali deixa uma trouxa de roupa para lavar e passar, o senhor Benedito, que passeia todos os dias com a sua mulher no jardim em que ambos falaram pela primeira vez, a Marianinha, que não pára quieta um segundo e beija as pessoas de que gosta a cada dez minutos, o professor António, que sabe ouvir, e sabe ler as pessoas num olhar, e tem o dom de ajudar e comover as pessoas com o tom de voz, o toque e as palavras.

Temos sempre algo de importante e de único para aprender com os outros. Muitas vezes o que acontece é subestimarmos a gente pela sua aparência. Natural. Mas por vezes estúpido e injusto. No máximo, essa atitude só é perdoável quando se subestima o outro por uma questão de defesa – protegermo-nos das aparências que nos parecerem cruéis, taradas, ou mesmo absurdas -, e nunca perdoável por preconceito. Quando se evitam pessoas por preconceito, evitamos também momentos que poderiam surpreender-nos pela positiva, e evitamos até uma possível mudança de opinião sobre essas pessoas.

É, contudo, junto das pessoas que mais passamos tempo connosco que nos formamos, e que vamos coleccionando e pondo em prática as lições de vida que formos absorvendo.
A liberdade, a confiança, o respeito, o carinho, a atenção, a compreensão, o apoio, ou a falta de tudo isto, serão condicionantes da nossa personalidade. “Diz-me com quem andas, e dir-te-ei quem és.”

Acredito que o ser humano nasça com uma “tendência para” que marca o ser estar no mundo, mas que, nascendo com ele, não é certa nem errada, porque não foi aprendida. Acredito na aura que vem connosco, uma aura que nos influencia os passos, como se tivéssemos uma missão a levar até ao fim, e o nosso espírito já chegasse a este mundo com uma orientaçãozinha, que a gente logo podia escolher seguir ou não. Seria como que um sopro divino sobre o coração, que viesse em cada um de nós, mas que se manifestasse de um jeito ou de outro, consoante as experiências e as pessoas que se cruzarem com a nossa vida.

O ser humano vai crescendo e acaba por se moldar a si mesmo, também, segundo princípios e ideais que adopte como prioritários norteadores da sua conduta.
Mesmo que todos nós partilhássemos um conjunto de crenças, teríamos sempre maneiras de interpretá-las muito próprias, pintando-as de cores diferentes. Porque somos assim. Distintos. Irrepetíveis.

Somos de acordo com aquilo que nos mostram, que nos dão a sentir, a provar, mas também de acordo com o meio onde vivemos, até mesmo com o lugar onde trabalhamos, onde convivemos e onde nos dá mais prazer passar o tempo. Há locais que definitivamente marcam o nosso lugar no mundo, e que funcionam, por isso mesmo, como grandes molduras onde nos enquadramos e nos vamos desenhando.

As crianças crescem segundo algumas regras, regras estas que nem devem sufocá-las nem estragá-las, mas sim norteá-las, para que tenham alguns limites, mas, como tudo, sem lhes roubar a liberdade devida, pois que tudo aquilo que é demais, estraga.
Há pais que mimam demasiado os filhos e esquecem-se de lhes dar limites importante, e por outro lado há pais que não mimam os filhos, de modo que estes só vêem “limites” e “faltas”, e esquecem-se de ser aquilo que são – crianças -, ou tornam-se rebeldes por falta de carinho e de cuidado, geralmente até para chamar a atenção dos pais.
Enfim. De tudo um pouco nos poderia acontecer, e de tudo poderíamos ser. Se somos do nosso jeito, é porque assim nos deixaram ser ou porque não nos permitiram ser de outra maneira.

Quando uma criança, um jovem, ou um adolescente, falta ao respeito a um professor e é mal educado, variando a situação, essa falha de conduta pode acontecer porque em casa e/ou na escola este não aprendeu, ou não interiorizou aquilo que lhe ensinaram “maneiras” – ser-se educado. Contudo, a forma como o professor repreende (ou não) o aluno será de extrema relevância para que o próprio jovem aprenda a estar em aula e com que modos tratá-lo.
Por vezes, as crianças desabituaram-se em casa a prestar atenção àquilo que lhes diziam, bem como a respeitar as pessoas mais velhas. Há falhas que vêem connosco de casa, mas também há falhas que se ganham na escola – e estas poderão vir da parte até mesmo de adultos, e não só de outros colegas, que sirvam de exemplo.

É muito importante, como todos sabemos, os exemplos que temos em casa, e que nos ajudam ou desajudam a ter “boas maneiras”, e mesmo a formar o nosso carácter, que é sofre alguma influência por parte dos outros, que nos são importantes, que nos são mais próximos, que convivem connosco, e que nos aconselham e nos ensinam o que acham ser certo ou melhor.
Daí todos termos percepções diferentes de uma mesma realidade – porque a vivemos à nossa maneira, na nossa medida, segundo os princípios que aprendemos e que, considerando-os preciosos, guardámo-los para nos guiarem a os passos.

Os pais, porém, têm sempre uma responsabilidade muito maior na educação dos filhos, e naquela que lhes falta ainda ensinar. Mesmo que os jovens convivam com muita gente na escola e fora dela, e possam aí aprender comportamentos que não sejam “tão correctos e íntegros”, caberá aos pais desses jovens confrontar-lhes com esse facto e explicar-lhes aquilo que é importante para conviver bem com os outros: aprender a respeitar, a ouvir, a interpretar, a ler os outros. E muitas vezes a ter paciência, a saber distinguir os momentos oportunos e inoportunos para uma intervenção, e até mesmo a arte da argumentação – muito apreciada e posta em prática pelos adolescentes.
Quem sabe se parte daquilo que parece errado na conduta dos filhos não é fruto da falta de atenção, de carinho, de preocupação por parte de alguns pais? Muitas vezes nem temos tanta culpa quanto aquela que nos atribuem. A educação que nos deram viciou-nos as atitudes e as condutas, e só mesmo com uma grande força de vontade e de consciência é que podemos esquecer e mudar o que de errado aprendemos, para sermos melhores.

Todos acabam por ter a sua parcela de responsabilidade! Ninguém se safa. Todos têm o seu papel: aprender, ensinar, voltar a aprender, voltar a ensinar. Mas claro que só é possível ensinar quando se aprendeu… Fora a excepção dos autodidactas, que tantas vezes andam por aí e nos maravilham com as suas teorias surreais. Os outros mortais terão um caminho mais trabalhoso, na base do “ir tentando acertar”. Mas os erros fazem parte de todas as grandes lições de vida, e sem eles não saberíamos a diferença entre aquilo que traz paz e entendimento, e aquilo que nos arma e nos deforma o pensamento. Caberá a cada um de nós perceber isso, e viver em consciência de todos: de si e dos outros – respeitar o mundo, as suas coisas, e as suas gentes. É uma questão de educação.

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